O Estádio Roberto Santos, ou "Pituaçu", que será palco do jogo entre Brasil e Chile na próxima quarta (09/09), em Salvador(BA), é mais um exemplo de como um estádio de futebol não deve ser feito. A obra foi paga pelo Governo Estadual, o mesmo que é proprietário do "Fonte Nova", foi comandada pelo homem que, num país sério, poderia estar preso por causa daquela tragédia que causou a morte de 7 pessoas, o orçamento estourou em mais de 100%, sua concepção é retrógrada, e, para completar, se tudo der certo, em poucos anos esse estádio virará sucata. Afinal os atuais escombros da Fonte Nova, serão reconstruidos provavelmente com os mesmos erros do Pituaçu.
O RESPONSÁVEL
Raimundo Nonato Tavares da Silva, o ex-jogador Bobô, é o Diretor-Geral da SUDESB, órgam do Governo Bahiano responsável pelos estádios públicos do Estado da Bahia. Responde a processo movido pelo Ministério Público pela negligência que culminou com o desabamento de parte da arquibancada, risco que já era previsto pelos arquitetos e engenheiros do SINAENCO (
aqui). Em 1ª instância, Bobô foi absolvido pelo Juiz José Reginaldo Costa Rodrigues Nogueira com o patético argumento de que
"as condições aparentes na Fonte Nova não apontavam para um colapso ou um desabamento de sua estrutura", ignorando o que diziam os especialistas.
Quanto ao Estádio de Pituaçu, o que importa é a declaração de Bobô sobre o Estádio, segundo ele:
"O investimento foi mínimo. As instalações já eram boas. O gramado é ótimo, por exemplo" – afirmou Bobô. A mesma reportagem declara que
"Para receber os comandados de Dunga, o governo baiano realizou sutis modificações no estádio"(
aqui).
Então, vamos às imagens que falam por si. O Estádio de Pituaçu era assim:

E assim:

Não foi "reformado", foi reconstruído (talvez digam que é "reforma" para não gastar com arquiteto, projeto e essas "bobagens" do mundo civilizado):

Agora está assim:

"Sutis" modificações? As instalações já eram boas? E, o "investimento foi mínimo"?
ORÇAMENTO ESTOURADO, E DAÍ? O DINHEIRO NÃO É MEU...
Apesar de Bobô declarar que o "investimento foi mínimo", a obra chegou a ser embargada e esteve parada por ter
ultrapassado em mais de 100% o orçamento inicial. De R$ 22 milhões orçados, foram necessários mais de, pelo menos, R$ 55 milhões, segundo informações do próprio Governo (
aqui). Tudo isso foi feito sem licitação, uma vez que a obra foi considerada
"urgente", sem qualquer justificativa plausível.
É a farra com o dinheiro público, em um estádio que não foi feito para ser rentável, não obedeceu qualquer orientação moderna em sua concepção e, muito em breve, exigirá novas alterações (leia-se "dinheiro", para ter alguma utilidade). Aliás,
meses após a inauguração do "moderno" estádio, já foram necessárias alguns "ajustes" para um simples jogo da Seleção (
aqui).
CONCEPÇÃO RETRÓGRADA = PREJUÍZO
Os estádios de futebol construidos após meados dos anos 90 na Europa, passaram a ter foco em conforto e segurança do torcedor, objetivando transformar o jogo de futebol em um evento esportivo gerador de receitas para os Clubes. Foi com base nesses objetivos que foram editados diversos manuais como as recomendações da FIFA para construção e reforma de novos Estádios. Foi também com base nesses objetivos que os estádios modernos passaram a ter amplos espaços de circulação, bares e lojas capazes de incrementarem as receitas. O público deixou de ser algo "ameaçador" e perigoso que necessitava ampla distância do campo. Pelo contrário, a oferta de lugares próximos ao campo de jogo e boa visibilidade passaram a valorizar esses lugares que são os mais rentáveis financeiramente. Mas esse viés econômico de vender bons lugares privilegiados para assistir aos jogos de futebol sofre ampla resistência para aportar no Brasil, infelizmente.
No Estádio Roberto Santos, o Pituaçu, mantiveram uma falsa pista atlética, como em vários casos no país. A pista só serve para enfeite, não possui piso compatível com a prática do atletismo, nem mesmo é aberta para tal. Mas, por causa, dela e por um vício inexplicável nos estádios brasileiros, o público fica afastado em vários metros atrás do gol, porque são incapazes de fazer um estádio sem pista atlética, mesmo que essa nunca venha a ser utilizada. O que seriam bons lugares, com ótima visibilidade do campo, da grande área e do gol, como em diversas arenas européias, ficam afastados e acabam vendidos a preços menores, sob pena de ficarem vazios.
Além disso, o Estádio foi construido sobre um barranco, ou seja, não existe área de circulação interna, o que é um grande diferencial entre estádios modernos e antigos. Tudo é externo, tudo é na chuva ou no sol. Como se vê, o "novo" Pituaçu já nasce velho, sem qualquer inovação ou planejanto para ser um equipamento urbano mais que autosustentável, lucrativo. Mas tudo isso, tem prazo de validade.
FONTE NOVA
A Fonte Nova contrariava tudo que defendem gestores especialistas em estádios de futebol. De concepção velha, condições insalubres e precárias, cheio de infiltrações, era o Estádio com as melhores médias de público do país, graças à apaixonada torcida do Esporte Clube Bahia.
Logo após a tragédia de 25/11/2007, falava-se em implosão, mas os defensores da Fonte Nova venceram a batalha e ela será totalmente reconstruida. Quem fala em "reforma da Fonte Nova" está mentindo ou está mal informado. O Estádio será totalmente reconstruido, afinal o que está contaminado por infiltrações, mofo e ferrugem tem muito pouco para ser aproveitado em uma nova estrutura.
Mas o risco do Novo Fonte Nova é que ele está nas mãos das mesmas pessoas que o deixaram desabar, que deram prova cabal de sua incompetência e irresponsabilidade e que no novo Estádio Roberto Santos, o Pituaçu, mostraram que ainda não entenderam nada sobre o que é um estádio de futebol moderno, que vá além das recomendações mínimas da FIFA e seja rentável.