Na reunião de 14 de Dezembro de 2011 o Conselho Deliberativo do Internacional aprovou por ampla maioria a assinatura do contrato de concessão do Beira-Rio para a Sociedade que será formada pela Andrade Gutierrez por 20 anos. Tendo votado pela "não" assinatura, por acreditar que este contrato não atende aos interesses do Inter, vou registrar aqui alguns fundamentos da minha opinião.
Viramos o fio. Perdemos - e erramos - o foco.
A reforma de um estádio de futebol não é um fim em si mesmo, mas um meio de gerar receitas. E é disso que estamos falando: receitas.
Os clubes de ponta na Europa têm, em média, um terço de seu faturamento decorrente de receitas provenientes de "match day", conforme a análise anual da empresa de auditoria Deloitte chamado "Football Money League" (o que pode ser visto
aqui e
aqui). "Match Day" é o gênero das receitas oriundas do estádio, entre bilheteria, publicidade, estacionamento, lojas, etc.
Ao fazer esta concessão do Beira-Rio, por falta de conhecimento a respeito do negócio, o Inter entregou grandes possibilidades de diversificação e desenvolvimento dessas receitas que poderiam ser grandes diferenciais para as finanças do Clube que resultam na capacidade, ou não, de contratar e manter atletas de ponta.
Ao invés de investir no estádio para gerar e diversificar receitas, entregamos o estádio para que um terceiro o faça. Em resumo: abrimos mão do negócio-estádio-de-futebol.
Concorrência do centro do país
Ao falarmos de fontes de receita temos que ter em mente que desenvolvê-las faz parte de um corrida entre diversos clubes concorrentes. Não podemos pensar que todos os Clubes do Brasil ficarão estagnados pelos próximos 20 anos, aqueles que conseguem ser pioneiros no desenvolvimento de determinados mercados, adquirem grande vantagem em relação a todos os demais. O próprio Inter é um ótimo exemplo disso com seu plano de associação.
Em 2011 com o desmantelamento do Clube dos 13, a concentração midiática e consolidação do domínio da TV Globo sobre o Futebol, garantiu a clubes como Corinthians e Flamengo uma vantagem de milhões de reais anuais em relação a seus concorrentes de fora do Eixo Rio-São Paulo.
Claro que isso não garante, por si só, os títulos e o domínio do futebol brasileiro, mas influencia consideravelmente. Basta ver o domínio dos clubes de Rio e São Paulo nos campeonatos nacionais.
Um Clube que já possui essa ameaça geográfica e econômica, não pode se dar ao luxo de ignorar seu estádio enquanto fonte de receita, muito menos, por uma motivação trivial como sediar uma Copa do Mundo.
Receitas são dinâmicas e não podem ser subestimadas.
Ao desenvolver a associação em massa de seus torcedores, chegando aos atuais mais de 100 mil sócios, o Inter garantiu uma década de fartura dentro de campo. Tal exemplo nos ajuda a fazer um exercício. Vamos supor que em 2002 fossemos avaliar o valor das receitas "mensalidades". Lucrávamos R$ 500 mil por ano com essa fonte. Se, mal informados de seu potencial, fossemos negociar a concessão dessa fonte por 20 anos, partiríamos do valor de R$ 10 milhões (20 anos x 500 mil). Se alguém oferecesse R$ 20 milhões antecipados é provável que nos atiraríamos. Mas não cometemos esse erro. Desenvolvemos o plano de sócios e hoje faturamos com os associados mais de R$ 30 milhões por ano.
Alguns clubes cometeram erro muito parecido em outra fonte de receita. A bastam três letras emblemáticas para lembrar: ISL. Na época o negócio era concessão do direito de exploração da marca e imagem em troca de investimento em jogadores. Alguns clubes concederam seus direitos de televisionamento e exploração da marca; outros, apenas uma dessas fontes de receitas. Em troca, recebiam grandes investimentos no futebol.
Na época, era a salvação do futebol brasileiro. Os clubes que não fechassem com algum "parceiro" estariam quebrados e perderiam a oportunidade. Enquanto isso, o Inter baseou-se em um estudo da Fundação Getúlio Vargas, feito em 2000, e não entrou nessa jogada. Na contra-mão do momento (não da história) investiu nas categorias de base: estruturou-se, ao invés, de entregar-se.
Modelo de Negócios Alheio
Um pressuposto básico de qualquer negociação é conhecimento. Como negociar a concessão de espaços e receitas que tu não conhece? É isso que acontece quando uma pessoa mal informada entra numa concessionária e entrega seu carro de garagem pela metade do seu preço de mercado.
Pois foi assim que o Inter negociou as fontes de receita que está concedendo para a Andrade Gutierrez. O grupo AG apresentou um modelo de negócios e o Inter apenas aceitou. Negociou pequenos detalhes, sem que tenha sido assessorado por especialistas independentes com conhecimento do negócio-estádio-de-futebol.
As dificuldades de negociação foram admitidas pelos advogados contratados pelo Clube para desenvolver a minuta do contrato, uma vez que enquanto que a AG estava com "a faca e o queijo na mão", o Inter suportava todas as pressões pelos prazos da Copa do Mundo.
A nefasta pressão da Copa do Mundo
Durante todo o processo que envolveu a reforma do Beira-Rio o Clube era acompanhado da pressão do "descredenciamento da Copa do Mundo". Pela forma amadora e atécnica que o processo foi conduzido, sempre havia o risco de "perder a Copa para o Grêmio". E esse era o argumento de quem pretendia a aprovação imediata, sem debate, sem argumentação, sem comprovação de viabilidade econômica.
Este estigma custou caro. Pois a falta de viabilidade econômica do modelo de auto-financiamento só veio a tona após a sucessão do Presidente Vitório Píffero. Uma vez que não tinha sustentação política e técnica em seu aspecto financeiro foi rapidamente derrubado.
A cada movimentação em relação ao projeto e a negociação da parceria, a pressa foi determinante. A tal ponto de, em determinado momento, a questão da Copa do Mundo passou a ganhar maior destaque, atenção e dedicação do que a geração de receitas com o estádio pelos próximos 20 anos.
Desde então a Copa do Mundo deixou de ser uma oportunidade e passou a ser uma ameaça ao Inter, pois o impediu de construir de forma técnica e independente a melhor destinação para a Copa do Mundo. Tanto é que vários Conselheiros, mesmo votando a favor do contrato, manifestaram ser "infelizmente, o melhor que temos para o momento". Ficando, assim, evidente que, caso não fosse o medo de "perder a Copa do Mundo", poderíamos desenvolver um negócio bem mais interessante para as finanças do nosso Clube e para o orgulho da nossa torcida.
Prioridade. Copa ou a geração de receitas para nosso Clube?
Em abril de 2010 o Conselho Deliberativo aprovou a antecipação de receitas com o aluguel de novos camarotes, no que ficou conhecido como o "autofinanciamento", porque a FIFA exigia "garantias". No final de 2010, o Presidente Vitório Píffero com autorização do Presidente Eleito Giovanni Luigi, mandou demolir a arquibancada inferior do Beira-Rio sob o risco de atrasar as obras e perder os prazos da Copa. Por fim, em Dezembro de 2012, a autorização para assinatura do Contrato foi aprovada no Conselho e já se passaram 2 meses e nada de começo das obras, o que nos leva a concluir que as pressões e "prazos da Copa" só serviram para cercear o debate público e político. E fazer o próprio Clube colocar a geração de receitas com seu estádio em segundo plano.
Estádio é um negócio e negócio exige boa gestão
Não existem milagres. Para gerar receitas com qualquer empreendimento é necessário um dose de boa gestão. Podemos construir um Allianz Arena em Porto Alegre, mas continuará deficiente e deficitário se continuar a ser administrado da forma atécnica e amadora tal como o Inter administra o Beira-Rio nos últimos anos. E foi dessa forma que o Clube conduziu a reforma do Estádio. Haviam profissionais de engenharia e arquitetura envolvidos, mas um estádio é muito mais do que isso.
Segundo o consultor em gestão de arenas
Romulo Macedo,
"A maneira profissional como os estádios são administrados na Europa é que faz toda a diferença. Um estádio é uma unidade de negócios idependente e precisa ser gerida como tal. São necessários profissionais especializados que pensem única e exclusivamente o estádio em sí, buscando sempre meios de melhorar a experiência do consumidor, formas de maximizar os lucros, etc. Se administrado de forma eficiente um estádio é capaz de gerar grandes receitas para os clubes proprietários".
Na avaliação do modelo de negócios proposto pela Andrade Gutierrez o Inter deu pouca ou baixíssima atenção ao modelo de gestão do Estádio, transformando o Beira-Rio em um Condomínio do qual o síndico será o Poder Judiciário.
Uma visão de futuro
Evidentemente que o Beira-Rio pós-reforma ficará melhor que o Beira-Rio em seu estado atual, qualquer comparação nesse sentido é inútil. É como comparar o Beira-Rio, em seu estágio atual, com o Eucaliptos. Nos próximos anos, nosso estádio estará concorrendo com diversas construções modernas, sejam elas construídas para a Copa ou após a Copa.
Se entregamos fontes de receitas que hoje são inexpressivas por falta de profissionalismo e as entregamos para um terceiro que não nos dará qualquer participação nos lucros, temos que exigir (conselheiros, sócios e torcedores) maior profissionalismo para desenvolver as receitas que nos restam. Uso como exemplo o sector rigths. Não precisamos de nenhum empreendimento para comercializar o nome da arquibancada superior para "Setor Coca-Cola", mas como não tivemos institucionalmente a capacidade para tal iniciativa, perpetuamos essa incompetência por 20 anos, entregando para um terceiro.
Nos debates da reunião de 14 de Dezembro, a grande maioria das intervenções concordava que com mais tempo, poderíamos desenvolver um negócio melhor para o Clube. A diferença foi o foco. E a maioria preferiu sediar a Copa ao invés de explorar o potencial do Beira-Rio para gerar receitas para nosso Clube. Receitas tão importante para contratarmos e mantermos grandes jogadores nos próximos anos.